Pra sempre crianças
Morei a vida toda com minha mãe e nunca quis morar sozinho para não deixa-la só.
Quando ela foi internada, achei que seria por um final de semana, depois pensei em uma semana e assim foi indo. Nesse meio tempo, limpei a casa, troquei as roupas de cama dela, lavei o banheiro e deixei tudo limpo pra quando ela voltasse.
Antes de ir pra UTI em coma induzido e entubada ela sofreu muito. As imagens me atormentam até hoje de vê-la sofrer.
Na sexta-feira, dia 24 de janeiro de 2020, eu acordei cedo, fui ao hospital visita-la na UTI, conversei com ela como fazia nesses 9 dias em coma induzido como se ela pudesse ouvir, saí de lá e fui almoçar. Por alguma razão eu estava feliz, acho que esperançoso que logo ela sairia dali.
Ouvi a música “My Heart will go on”, chorei. A letra diz “Todas as noites nos meus sonhos eu vejo você....Você está salva no meu coração” e descreve perfeitamente a dor de quem perdeu alguém.
Fui pra academia e quando foi 20:33 o hospital me liga dando a notícia.
Corri pra casa, peguei as roupas dela e só voltei pra casa no sábado à noite, mais de 24 horas acordado.
Na primeira noite que voltei pra casa após ter sepultado minha mãe a sensação foi estranha. Era a primeira vez que entrava em casa sabendo que seria assim pra sempre.
Eu tinha medo, achava que iria acordar de um pesadelo e ao mesmo tempo sentia um vazio gigantesco. Eu sabia que dali pra frente eu estava só. Adormeci na poltrona, porque estava muito cansado e acordei gritando o nome dela, chorando e tendo ataque de pânico pela primeira vez. Todos os dias e durante muito tempo eu acordava desesperado, qualquer coisa que eu fazia em casa quando ela estava viva me machucava.
Pela primeira vez na vida eu passei a não esconder o amor que sentia por ela e a dor gigantesca que ainda sinto. Eu chorava na rua, contava para todos a minha dor e até pra desconhecidos eu expunha toda a angústia que sentia. Eu achava que isso traria minha mãe de volta de alguma forma.
Para as nossas mães nós somos sempre “crianças” e de certa forma somos mesmo. Quando se perde a mãe, nós nos comportamos como uma criança abandonada, com medo, sem destino ou direção, assustada e querendo a única pessoa que pode nos salvar: a nossa mãe.
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